Por Mário Marinho

O doutor estacionou o carro bem na porta do condomínio onde mora. Eram sete e meia da noite. Assim que parou, um indivíduo encostou­-se na porta de seu carro, mostrou o revólver e anunciou o assalto.
Mandou o doutor descer e passar par ao ban­co de trás. Assim como o assaltante número um que apareceu do nada, o número dois também surgiu do nada junto à porta do outro lado e entrou.
Aparentemente calmo, o Doutor tentou argu­mentar.
– Olha, numa boa, hein. Me deixem descer aqui mesmo, Vocês pode levar o carro, esse pacote de compras.
– Fica calado aí, respondeu o assaltante núme­ro dois que ocupava o banco do carona.
Dito isso, olhou o pacote de compras, exami­nou e não gostou.
– Puta merda, só tem alface, tomate… tem nada que preste?
– Tem sim, respondeu solicitamente o doutor. Tem carne de sol, um pacote de pilha recarre­gável, duas lasanhas.
– Fica calado! Cê tá de roupa branca. Deve ser médico, né? E tem dinheiro.
– Não, não. Sou dentista. Não tenho dinheiro. Sabe como é: a gente só recebe ao final do tra­tamento e mesmo assim, tem muitos convênios.
– Dá pra ficar calado?
O carro passou em frente a um bar onde o Doutor costumava tomar cerveja com os ami­gos. Viu alguns deles na calçada, aproveitando a noite gostosa de primavera. Pensou: será que eles me viram? Se viram, vão saber que é um sequestro. Mas será que isso é bom? E Se chamarem a política. Porra, pode ter tiroteio!
Ninguém viu. Ainda bem, suspirou o dentista.
Seguiram para Osasco. A meta era encontrar uma agência do banco que o Doutor tinha conta e sacar alguma grana. O Doutor, em aparente calma, sentava se decidir: fico calmo ou tento sair fora?
Não conseguiu se decidir.
Encontraram uma agência. Prontamente, o doutor entregou a senha, mas foi logo avisan­do: tem pouco dinheiro.
O assaltante voltou com cara de bons amigos.
– Pô, o cara falou que tinha pouco. Olha aqui: é merreca. Só 300 conto.
O segundo assaltante foi prático.
– Num vai sair nada daqui. Vamos soltar o cara.
– Aqui não, né? Rebate o ouro assaltante.
– Tá certo, aqui não é bom pra gente “quemá o campo”. Pode complicar.
Ao ouvir “quemar” o Doutor estremeceu.
– Ô gente boa, Você não vão me queimar, né?
– Fica calado “quemá o campo” é fugir.
Rodaram um pouco mais até chegar à Vila Yara e se deram por satisfeito.
– Aqui dá pra gente quemá o chão aí pra baixo. Poder descê aí.
Antes de abrir a porta, o doutor pergunta:
– Posso levar minha sacola? Sabe como é, né: sai pra fazer compras. Se eu chegar em casa sem nada,a patroa é brava e eu vou ter que ouvir.
Um olhou para o outro. Foram solidários.
– Tá bom. Levas essas merreca. Num olha pra trás não.
Aliviado, o doutor desceu. As pernas começa­ram a tremer. Estava fraco. Viu logo à frente um botequim, daqueles bem sujinhos. Entrou, escorou no balcão e pediu:
– Me dá uma cachaça, qualquer uma, meio copo.
A pinga desceu queimando, mas, colocando as coisas no lugar. Acalmou-se e foi caminhando lentamente para casa. Não conseguia pensar em nada. Meia hora depois que lhe pareceu uma eternidade, tocou a campainha de casa.
A mulher abriu a porta com cara de brava.
– Por que toda essa demora?
– Deixa eu explicar. Antes de mais nada, eu fui sequestrado…
– Ah!, tá! Com esse bafo! Que desculpa mais esfarrapada!


Mário Marinho é associado do Continental Parque Clube desde 1973.
Atualmente, é vice-presidente da Diretoria.